Mais de 140 aves são resgatadas em São Leopoldo em suposto ponto de tráfico de animais silvestres
Operação encontra pássaros sem anilhas, filhotes de caturrita e diversas espécies nativas mantidas ilegalmente; ausência de prisão em flagrante levanta questionamentos
Uma operação conjunta da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (Sema) e da Polícia Civil resultou no resgate de mais de 140 aves silvestres mantidas de forma ilegal em uma residência no município de São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. A ação ocorreu durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão.
Segundo informações levantadas pelos agentes, o local funcionava como ponto de recepção, criação improvisada e possível venda de animais, características típicas de tráfico de fauna, um dos crimes ambientais mais recorrentes no estado.
Cenário encontrado: aves sem anilhas, filhotes e espécies de alto interesse no tráfico
Ao ingressarem na residência, os agentes se depararam com um ambiente repleto de gaiolas, caixas improvisadas e pássaros mantidos em condições precárias. Foram identificadas 81 aves silvestres nativas, todas sem anilhas, o que caracteriza irregularidade e indica captura ilegal na natureza.
Entre as espécies apreendidas estavam:
- Canários-da-terra
- Sanhaços-frade
- Azulões
- Trinca-ferros
- Coleiros
- Bicos-de-pimenta
- Cardeais

Além dos pássaros adultos, o que mais chamou a atenção foi a presença de 61 caturritas (Myiopsitta monachus) — entre filhotes e juvenis — muitas delas ainda incapazes de se alimentar sozinhas. A espécie é típica do Rio Grande do Sul e altamente visada no comércio clandestino.
A presença de filhotes reforça a suspeita de que o local funcionava como receptador de aves retiradas diretamente dos ninhos, algo comum em esquemas de tráfico.
Indícios claros de tráfico e comercialização clandestina
A união de fatores — aves sem anilhas, diversidade de espécies, presença de filhotes, alta quantidade de indivíduos, ausência de documentação e condições inadequadas — compõe um cenário típico de ponto de venda clandestino.
Especialistas apontam que três elementos são fundamentais para caracterizar tráfico:
- Captura na natureza (confirmada pela ausência de anilhas)
- Manutenção irregular (comprovada pelo estado das acomodações)
- Intenção de comercialização (indiciada pela variedade e quantidade de animais)
No caso de São Leopoldo, todos esses elementos estavam presentes.
Falta de prisão em flagrante surpreende e gera dúvidas
Apesar da seriedade dos fatos e dos indícios de maus-tratos, não houve prisão em flagrante, o que chamou atenção de criadores regularizados, ambientalistas e especialistas em legislação ambiental.
A legislação é clara:
- Artigo 29 da Lei 9.605/98: captura, guarda ou comercialização de fauna silvestre sem autorização é crime.
- Artigo 32: submeter animais a maus-tratos também é crime.
- Artigo 29, §1º, III: manter filhotes retirados da natureza agrava o delito.
Somando-se a isso, o volume de aves encontradas era suficiente para caracterizar tráfico em escala, o que normalmente justificaria prisão em flagrante.
A ausência do procedimento gera questionamentos sobre:
- critérios utilizados pela equipe para não efetuar a prisão
- interpretação dada à situação
- condução da investigação
- possível relaxamento de medidas em operações ambientais
Até o momento, não há explicação oficial sobre a decisão.
O tráfico de aves no RS: um problema crescente
O Rio Grande do Sul é um dos estados que mais sofre com o tráfico de aves, especialmente:
- coleiros
- trinca-ferros
- azulões
- caturritas
A retirada de filhotes e juvenis é prática comum, pois o mercado clandestino paga mais por animais dóceis e jovens.
Quando apreendidas, essas aves raramente conseguem retornar à natureza devido à perda de comportamento selvagem — aumentando os prejuízos ao meio ambiente.
Criadores legalizados pedem fiscalização mais técnica
Criadores comerciais e amadores com registro no IBAMA reforçam que a fiscalização precisa ser mais técnica, coerente e proporcional, distinguindo claramente:
- criação legalizada, com anilhas e nota fiscal
- tráfico e captura ilegal, como o caso de São Leopoldo
Eles defendem que operações como esta devem ser tratadas com rigor, pois se trata de concorrência desleal e prejuízo à fauna nativa.
Próximos passos
As aves resgatadas foram encaminhadas para avaliação veterinária. Parte delas deve ser destinada a criadouros autorizados para os cuidados e alimentação para após serem destinadas a soltura no seu habitat natural, as caturritas filhotes serão levadas para centros de reabilitação.
A investigação da Polícia Civil deve continuar para analisar:
- origem das aves
- rotas de tráfico
- possíveis compradores
- envolvimento de terceiros
Enquanto isso, persiste a pergunta que marcou a operação:
por que não houve prisão em flagrante diante de um cenário tão evidente de crime ambiental?

